8M – um dia de luto e luta

8 de março, um dia no calendário dedicado à luta das mulheres, que apesar dos avanços, não conseguem ter acesso ao direito mais básico, ficarem vivas. A violência contra as mulheres atingiu um nível insustentável. A cada seis horas, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil; ao final de cada mês, contamos cerca de 120 corpos.

As ações das instituições públicas para coibir essa violência e a luta das próprias mulheres têm se mostrado insuficientes. Acreditamos que o fim dessa barbárie não virá das mãos dos nossos algozes. Contudo, é preciso que homens que não concordam com o patriarcado — embora se beneficiem dele — levantem-se contra essa matança.

Onde estão os homens contra essa vilania? Por que não convocam seus pares para pôr fim a esse rio de sangue?

Sim, homens precisam se levantar, se posicionar, assim como fez Lima Barreto há mais de um século.

Em que pesem todas as controvérsias de Lima Barreto no que tange às mulheres, ele foi o primeiro homem na literatura brasileira a denunciar o feminicídio e a pedir que os homens parassem de matar mulheres movidos pelo sentimento de posse. Isso foi em 1915. O “instituto da mulher casada” [que a colocava em posição de submissão legal ao marido] só cairia no final da década de 1970.

Na crônica “Não as matem”, Barreto implorou:

“Deixem as mulheres amar à vontade. Não as matem, pelo amor de Deus!”

Em um trecho da obra, ele analisa:

“Esse rapaz que, em Deodoro, quis matar a ex-noiva e suicidou-se em seguida é um sintoma da revivescência de um sentimento que parecia ter morrido no coração dos homens: o domínio sobre a mulher. O caso não é único. […] Todos os experimentadores e observadores dos fatos morais têm mostrado a inanidade de generalizar a eternidade do amor. Pode existir, existe, mas excepcionalmente; e exigi-la nas leis ou a cano de revólver é um absurdo tão grande como querer impedir que o sol varie a hora do seu nascimento.”

Faço coro com Lima e, mais uma vez, digo:

Homens, acordem! Nós, mulheres, apesar do luto, estamos na luta por nosso bem viver.

Obra de Marcela Cantuária, As heroínas de Tejucupapo. Cortesia da artista e da galeria A Gentil Carioca, fotografia de Thiago Barros.

Sara Araújo (Salvador, Bahia) tem 48 anos, é Mestranda em Ciências Sociais, bacharel em Direito, licenciada em Ciências Sociais, pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica, Analista Jurídica da Defensoria Pública do Estado do Paraná. É palestrante, sommelière de cervejas, ganhadora do Prêmio Zumbi dos Palmares (2017) pela Câmara de Vereadores de Bauru (SP), integrante da Comissão Étnico Racial Lélia Gonzáles da Associação dos servidores/as da Defensoria Pública do Estado do Paraná, colaboradora do NUDEM – Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres, do GT de Racialidae da Defensoria Pública do Paraná, e integrante do coletivo Expressão Poética desde 1999. Coautora das seguintes obras: Poetas Virtuais (2000) Poêmico – Poesia em tempos pandêmicos (2021) Mãe Pretas – Maternidade Solo e Dororidade (2021) Expressinho Poético (2022) e Quando o Racismo bate à porta (2023). É colunista da Revista Philos e você pode encontrá-la nos perfis @saraaraujo—— e @literaturanobar no instagram.


Referência: [1] BARRETO, Lima. Não as matem. In: Os melhores contos de Lima Barreto. São Paulo: Editora Ática, 2005.

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